quarta-feira, 17 de junho de 2015


Forjada em ferro
Por sobre a pedra
Com fogo vivo e sob a dor
Tornei-me a pedra
Tornei-me o fogo
Tornei-me o ferro
Eis o que sou

Que eu seja humana
Que eu seja doce
É coisa impossível
É ser outra em meu lugar

Como lembrar do gosto
Da fruta ainda não provada
Como fiar da pedra
O fio de seda que nela não há



Lara Félix


Ventania vem

Leva meus pensamentos

Sacode as roupas e o pó dos tempos

Derruba os frutos longe das raízes



Ventania vem

Leva minhas memórias

Enche meus olhos com o pó de outro lugar

Conta pra mim o que lá haverá


Ventania vem

Leva meus sentimentos

Sopra meus sonhos pra longe

Pra que eu os possa buscar





Lara Félix

sábado, 22 de novembro de 2014



meu coração me diz coisas
que não sei de onde ele tira
me conta o que os olhos não vêm
são verdade ou são mentira?

só sei que o tempo me afirma
com a sucessão de eventos
ouça mais seu coração
pense menos argumentos

Lara Félix

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

DE MÃE PARA FILHO

 Calma, picôco, calma.... Engatinha antes de andar
Que os teus caminhos no mundo não cansam de te esperar
Se soubesses como o tempo vai a tudo devorar
Te deslumbravas mais hoje, que a velhice há de chegar
Lá pra fora da porteira tem estradas, tem o mar
Infinitos horizontes que ainda vais desbravar
E todas estas surpresas que poderás encontrar
Vão tomar-te teus tesouros por tudo que hão de te dar
Pelo teu jardim florido não passe sem demorar
Sente a grama nos teus pés, cheira a flor a despontar

Calma, picôco, calma... Mude a pressa de falar
Deixa as palavras de lado pelo brilho do olhar
Deixa as palavras de lado pelo sorriso a brilhar
Que os caminhos lá de fora, que hão de um dia te levar
Ofuscarão nos teus olhos a luz que vejo a dançar
Sufocarão o teu riso, farão lágrima rolar
Quisera que tu soubesses que ainda vais desejar
Voltar no tempo de hoje e mais um pouco aproveitar
Da criança que já foste, que jamais irá voltar
Não tome dela seu tempo, não a queira abandonar

Lara Félix 

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

TOTALIDADE

não pode haver um só
senão na há verdade

o tédio não é são
são barras de uma grade

mas se ninguém percebe
pra ser integridade
                              
se fundem muitos nomes
na minha identidade

Lara Félix

Dez/2013
me conheço pelo nome
esse que diz quem eu sou
não o nome que me deram
mas o que ecoa o meu som

não peça que eu pronuncie
não queira ouvir nem saber
esse nome me pertence
esse nome é meu poder

quando meu nome se solta
tem estrondo de trovão
tem força de tempestade
tem fúria de furacão

e quem escuta meu nome
nunca mais o quer ouvir
ele traz destruição
antes da paz ressurgir

não subestime meu nome
não o traga para fora
ele é a luz que te cega
e a treva que te devora

Lara Félix

Dez/2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

CHAPEUZINHO

meu coração de criança
não sabe nem procura nada
abre as portas, atravessa
não deixa janela fechada

levo doces, levo risos
na minha cesta encantada
levo um sol no meu peito
e uma noite enluarada

sigo espalhando meu canto
dançando na caminhada
deixo uma trilha de açúcar
de calda caramelada

o lobo mau que fareja
oculto pela minha estrada
quiçá tenha um coração
que desperte na jornada

Lara Félix

Dez/2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

BÚSSOLA


eu perguntava-me isso
de onde vim, pra onde vou
e a bússola me disse
que tudo é onde estou

I


então nasci para o mundo
vindo do fogo e do sul
saí da luz, do profundo
escuro e denso azul

cheguei pensando e sabendo
quem eu sou, de onde vim
não sou o corpo vivendo
sou centelha, deus, enfim

e me lembrava de tudo
e me lembrava de mim...

II


e despertei para o Todo
com o vento a me soprar
vindo do leste com tudo
trazendo as novas do ar

via de tudo um pouco
sentia a inspiração
podia ser santo, ser louco
podia seguir a visão

e me esquecia de mim
perdido na vastidão...

III


pisei firme no meu norte
sentindo a terra pulsar
escolhi a minha sorte
nutrido pra manifestar

pus as mãos na terra minha
fiz o molde do meu sonho
na labuta e na entrelinha
eu li que estava risonho

e me moldava de novo
para expressar o meu som...

IV


sem saber que o fim da linha
não era chegar ao norte
segui a água que vinha
me carregar para a morte

lá onde o sol adormece
encontrei o mar profundo
fiz minha última prece
me despedi deste mundo

e retornei à origem
onde sabia de tudo...

V


entrei no vazio completo
perdido na escuridão
e vi que estava desperto
eu era a imensidão

senti a vida pulsar
no fundo da consciência
com a alma a me mostrar
meu centro e sua ciência

e soube o caminho certo
pra guiar minha existência...

Lara Félix


Dez/2013

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CERTEZA

Talvez da terra firme marinheira
Talvez não haja chão sob meus pés
Talvez tenha certezas de mentira
Talvez seja um espelho em seu revés

Talvez esteja vendo tudo claro
Talvez um cego tateando na ilusão
Talvez jogando fora um sonho raro
Talvez retendo o podre em minha mão

Talvez desafiando a outra margem
Talvez fugindo pra não acordar
Talvez um sábio da maior coragem
Talvez tolo covarde a se matar

Talvez minh'alma saiba e esteja certa
Talvez a mente engane à precisão
Talvez eu atravesse a porta aberta
Talvez eu morra dentro da prisão

Lara Félix
2012

domingo, 29 de agosto de 2010

(?)

Mais uma sombra que passa
entre um e outro vento
varre do meu pensamento
todo intento e toda graça

Mais um brinquedo vão
uma onda passageira
viagem sem rota certeira
que cabe na minha mão

Mais um momento assim
em que descanso meus medos
e invento outros segredos
que não me escondem de mim

Mais uma máscara pinto
para fingir que estou vivo
para abafar o meu uivo
finjo que não sinto e sinto

Mais uma peça em cena
e um nó que não desato
não estou em nenhum ato
sou a platéia que encena