segunda-feira, 22 de março de 2010

Dentro de mim mora ela, a criança
Que fui e que sou, e a esperança
De que ela um dia em mim prevaleça
Pois, antes que eu me esqueça

Dentro de mim também mora ela, a besta
Horrível que sou e que me faz funesta
Como um segundo eu que me habita
Fazendo da criança a morada maldita

Por onde passa o horror dos meus fantasmas
E que me mostra na sombra os miasmas
A escorrer das minhas cicatrizes
E mesmo em seus momentos mais felizes

Não há como proteger minh'alma pequenina
Do que ela mesma pariu, que é minha sina
Esta besta imensa que a persegue afora
Cobrindo de pavor e sombra sua terna hora

E, se mais em amor minha criança brilha,
Mais em ódio a besta ruge e trilha
Ao seu lado, como contrapeso seu
E me dói saber que ambas sou eu

E se em amor a criança minha resplandece
Igualmente em ódio a besta em mim cresce
Porque não há entre um e outro diferença
Senão na alma de quem faz de um deles sua crença

E não sei se ela, a criança, que já estava em mim
Ficará para sempre viva, ou se no fim
A besta por ela produzida, que me abomina
Calará para sempre minha alma de menina

Por mais que eu pense não encontro um jeito
De desfazer o que em mim já está feito
Se a besta mata a criança, por deus, nem pense...
Se a criança mata a besta, a besta vence!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

alinhavo nossos momentos com a linha do imaginário
um assombro a cada ponto e um suspiro em cada arremate
meu coração tem um saber que é centenário
mas meu saber vão nem sequer a seus pés bate

meu coração sabe ser teu ou ser de qualquer outro
e sabe sê-lo com entrega inteira e sem pedidos
mas o que sei me diz que perco quando o dou, a ponto
de ver meus sonhos e meu próprio coração perdidos

e a linha fina com que a mim mesma me costuro
a reparar o que, ao fim, não foi rasgado
é de uma chama que se acende em meu escuro

quando meu coração fala ao meu saber silenciado
e ele me diz com sábia voz de doce augúrio:
te entrega mais, que não há mais do que o que é dado

sábado, 30 de janeiro de 2010

0 (ZERO)

é preciso saber usar
qualquer coisa a seu favor
é preciso aceitar a dor
e voltar a caminhar
mesmo sob a própria sombra
é urgente ressucitar
cada vez que um eu morrer
e voltar a perceber
o poder que nos assombra
é preciso estar à sós
e atento a cada voz
pra escutar o que não fala
necessário é permitir
que a besta possa emergir
pra revelar sua força
do fundo da sua fraqueza
deixar fluir a certeza
da única voz que não cala

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

APRESENTAÇÃO

Meu nome não digo mais
Como fiz tempos atrás
Em que andava distraída

Deixo a alma nua à mostra
A quem quiser olhar a ostra
Que se abre oferecida

Como Shakespeare dizia
Com sua sábia poesia
O que é um nome afinal?

Meu coração apresento
É espaçoso aposento
Nele só não cabe o mal

A quem o quiser conhecer
Não precisa nem bater
Basta dar a senha certa

Não tem porta esta pousada
Pra fazer dele morada
Para em frente e diz "Desperta!"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

MORTE

caminha ao meu lado, mas sem pressa
de chegar, pois és o que me resta
a companheira certa no caminho incerto

e não te prives de tocar-me o ombro
a me lembrar e me causar assombro
com tua mão que está sempre por perto

impulsiona meus pés, mas devagar
pois é para ti que estou a caminhar
em meu caminho vasto e tão deserto

sem tua companhia aqui presente
a recordar que estás sempre iminente
já estaria eu morta sem sequer saber

é o teu sopro frio que me anima
embora tu me atraias feito ímã
rumar a ti é o que me faz viver

não quero apagar-te do meu pensamento
para andar mais viva a cada movimento
e enfim lançar-me em teus braços pra morrer

XXV

Quem é esse que caminha
Soberano e estrangeiro
Feito rei exilado pelos meus sonhos

Quem é esse que marca meu corpo
E circula em meu desejo
Com a embriaguez da poesia

Quem é esse que me assombra
Fantasma e exorcista
Rondando minha noite vazia

Quem é esse que me invade
Posseiro da minha alma
Domador dos meus sentidos

Quem é esse que me falta
Mais que a água ao deserto
Contorcendo minhas vísceras de ausência

Quem é esse que sopra
A vida em minhas narinas
Feito um deus que me ordenasse respirar

Quem é esse estranho que tanto sei
Dentro de mim
Feito a parte que faltava à minha integridade

Quem é esse que antes de eu nascer
Já me tinha cativa
Selada para ele onde quer que eu fosse

Quem é esse fragmento
De eternidade
Onde me completo e me desfaço

Quem é ele

XXIV

dentro da tua presença eu permaneci, imóvel
de tamanho espanto
e caminhei com minha pele por teu abraço
à exaustão dos poros
fatiguei as mãos insaciáveis do teu contato
derramei as vestes da minha história em busca
do teu gosto com os sete sentidos
rasguei meu peito em recolher-te todo
para dentro de mim
desejei gravar-te em minhas veias pela eternidade
e quis que cada parte do meu ser guardasse nítida
a memória de quem és
a sensação de quem somos
e com a fome de quem atravessou doze desertos
em direção à tua fonte
provei à larga o bálsamo destes olhos
converti em lábios todos os meus órgãos
reverti o tempo e voltei ao antes de nós dois
e após enfim o êxtase de ser-te a tal ponto
que apaguei de mim quem jamais fui sozinha
acordo ainda embriagada
inteiramente dilacerada
chorando ainda de prazer

EU

Da treva profunda dentro do meu ser
Vejo luminosa sombra a alvorescer
E como no espelho alvo do assombro
Identifico ao mirar, por sobre o ombro
O meu próprio eu dentro de um outro ser

E esta criatura estranha que me habita
De similaridade quase infinita
Sou eu, um outro eu, com outra poesia
E, olhando a mim mesma, numa análise fria
Uma idéia se fixa, faz meu corpo estremecer

Esse outro ser que vive em mim é tão diverso
Que viver o que for me parece perverso:
Não sei qual, de mim, sou eu à vera
E em cada alvorescer de primavera
Jamais saberei se sou eu mesma a viver.

(Serei espectadora do meu próprio ser?)

XVIII

A morte que se teme é uma quimera
E se não fosse seria um presente
Eternizaria a todas as criaturas
Com a solenidade do seu momento
Com a sua presença inevitável
Mas esta morte não existe
Existe uma outra morte, essa sim
Fria e estática como geleira
Dura e imutável como o tempo
A morte
É o escudo de amargura
Com que o doce se traveste
É o silêncio indiferente
Do que transborda
É a vontade sufocada
Pelas mãos do medo
É o esquecimento absoluto
Por parte daquele a quem se ama
É a espera de uma vida inteira
Pelo que chegou quando nascemos

XVIIII

Ela: palavra que me exaspera
não por alguma querela
nem porque queira sê-la
mas por eu ser a outra